Revisado: 06/05/2000

 

 

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Parte II - O Papel da Mídia na 

Política Internacional 

 

Devido aos efetivos métodos de controle utilizados pelo governo filipino para censurar a mídia local, tanto a corrupção governamental generalizada, quanto os abusos contra os direitos humanos passaram desapercebidos da mídia internacional.  

Infelizmente, na maioria das vezes, os veículos internacionais utilizavam as matérias publicadas pela imprensa filipina, para pautar os noticiários do dia. No caso específico dos veículos americanos, a mídia pode ter se distraído devido à longa e duradoura amizade entre Marcos e Washington.  

Muitos filipinos, alguns dos quais lutaram, lado a lado, com os soldados americanos na Segunda Guerra Mundial, ficaram ressentidos com esta falta de interesse da imprensa americana e internacional. 

Uma vez, após uma palestra que dei em uma grande universidade nas Filipinas, (Marcos ainda era Presidente), um professor se levantou e reclamou: " Sim, agora vocês estão interessados, mas onde estavam vocês (a mídia) todos esses anos, quando centenas, senão milhares, de cidadãos filipinos desapareciam?"  

Quem estava ali era eu, e a única resposta que pude dar foi a mais pura verdade: "Nós não fizemos o nosso trabalho."  

Acredito que tenha sido um documentário transmitido pela PBS, o primeiro a chamar a atenção do público para a gravidade da situação nas Filipinas. As agências de notícias comerciais o seguiram.  

 

Marcos Começa a Perder o Controle da Mídia

Embora Marcos tenha conseguido censurar os veículos de comunicação locais, por duas décadas, quando a imprensa internacional se interessou pelo que estava realmente acontecendo nas Filipinas, as coisas mudaram de figura.  

Uma das razões pelas quais a imprensa americana não procurou se inteirar, mais profundamente sobre os acontecimentos nas Filipinas, foi a amizade do governo americano com a administração de Marcos, que permitiu aos Estados Unidos instalar e operar várias bases militares naquele país.  

O ex-diretor da CIA, George Bush (durante o seu mandato de vice-presidente) apontava as Filipinas como um exemplo de democracia para as outras nações. E isto pode de alguma maneira explicar o motivo, pelo qual os veículos internacionais não olhavam duas vezes, para aquele país tão amigo e parceiro dos Estados Unidos.  

Mas, as fitas de vídeo que mostraram corpos flutuando em um rio, mudaram tudo isso.  

Em 1983, começaram os protestos internos contra a ditadura de Marcos. Os militares reagiram matando, torturando e prendendo dezenas de milhares de trabalhadores e camponeses.  

Quando a imprensa internacional deixou de acreditar nas declarações oficiais dos governos americano e filipino e começou a averiguar, sobre o que realmente estava ocorrendo nas Filipinas, a posição de Marcos começou a ruir. (Para continuar no poder "democraticamente" durante vinte anos, Marcos mudou a Constituição de seu país e operava em regime de lei marcial).  

Um dos eventos mais significativos da Revolução Filipina aconteceu quando o Ministro da Defesa filipina Juan Enrile e o General Fidel Ramos convocaram a imprensa internacional, às pressas, para uma coletiva, que durou três horas, no Campo do Aguinaldo.  

Num esforço para atrair a atenção mundial e com isso garantir a própria integridade física, Enrile e Ramos explicaram aos repórteres estrangeiros, os motivos pelos quais estavam se voltando contra o líder a quem haviam servido por tantos anos.  

Pouco depois de terminada a coletiva com a imprensa, Marcos utilizou a sua poderosa Rede de televisão para denunciar Enrile e Ramos como traidores.  

Mas aí aconteceu, que um cardeal Católico vendo uma possibilidade de mudança após duas décadas, rompeu o silêncio e utilizou as estações de Rádio Católicas para apelar ao povo filipino. (As estações de Rádio católicas eram os únicos meios de comunicação com popularidade significativa, que os interesses de Marcos não controlavam de alguma forma.)  

O que aconteceu, a seguir, mudou o curso da História das Filipinas.  

Milhares de filipinos encheram as ruas de Manilha para proteger Ramos e Enrile ("os traidores") na sua (vulnerável) fortaleza rebelde.  

 

A Mídia-Organizada "Poder do Povo" 

D urante esses dias de tensão, uma das poucas revoluções sem sangue que o mundo já viu, as estações filipinas de Rádio católicas representaram a força motriz do "poder do povo" que eventualmente derrubou Marcos.  

Mas, Marcos não abandonou o poder sem luta. Ele utilizou a astúcia para tentar uma última cartada.  

Sabendo que as estações de rádio católicas haviam se tornado a principal fonte de informação, o regime de Marcos idealizou um plano para utilizá-las em sua própria vantagem. 

Eles utilizaram uma frequência ponto a ponto - que os oficiais de Marcos sabiam estar sendo monitorada pelos rebeldes - para transmitir a falsa informação de que o Presidente havia fugido para Guam.  

Com isso, eles esperavam obter duas coisas: atrair os rebeldes para fora de seus esconderijos e conseguir uma justificativa para instaurar a lei marcial e fechar as estações de rádio.  

Aconteceu exatamente o que o regime de Marcos esperava. Após a transmissão da notícia, a confusão (e o júbilo prematuro) tomou conta do país.  

Marcos, então, convocou uma coletiva com as emissoras de TV, para mostrar ao mundo que, ao contrário das notícias amplamente divulgadas, ele continuava em seu palácio de Manilha e em controle da situação.  

A credibilidade das estações de Rádio católicas ficou bastante abalada e o povo, sem saber mais, em quem acreditar.  

M as, a credibilidade do ditador não durou muito tempo. Numa nova ofensiva contra a oposição, Marcos aparece na TV, cercado por sua esposa, família e três generais, para um novo pronunciamento. E enquanto milhares de filipinos o assistem, Marcos é cortado (do ar) no meio de uma frase - justamente quando autorizava as tropas a utilizarem armas de pequeno porte contra os rebeldes.  

A imagem de Marcos é substituída pela de Enrile e Ramos. Os rebeldes haviam assumido o controle de uma das principais emissoras de televisão de Manilha.  

O fatídico programa de TV contribuiu para a queda do ditador, ainda de outra maneira. Marcos havia ordenado ao General Oxales para atirar contra os rebeldes. ("rebeldes" para ele, naquele momento, eram os seus milhares de compatriotas.)  

Mas quando Oxales viu Marcos na televisão com apenas três generais, ele teve certeza de que Marcos havia perdido o apoio das forças armadas e que a causa estava perdida.  

Utilizando a estação de TV estatal, o General Ramos explicou ao povo filipino, que os rebeldes tinham naquele momento o controle de 85% do exército nacional.  

À medida que os protestos contra Marcos aumentavam, os veículos de comunicação locais, liberados da censura, mantiveram o povo filipino em contato direto com a oscilante opinião mundial.  

E nquanto isso, nos Estados Unidos, as revelações transmitidas pelos meios de comunicação internacionais, aumentaram a pressão sobre a administração de Reagan e o governo americano finalmente deu as costas a Marcos. (Mas não sem antes resgatá-lo das Filipinas, com toda a sua família e muitos bens pessoais, para o Havaí.)  

É interessante notar que durante as primeiras fases da revolução, quando as emissoras de TV filipinas, controladas pelo governo, foram ignoradas pela população, Marcos utilizou os meios de comunicação estrangeiros para indiretamente falar ao seu povo. (Ironicamente, a mesma mídia estrangeira que acabou por precipitar a sua queda.)  

Marcos concedeu, mais de 10 entrevistas especiais a veículos de comunicação estrangeiros - a maioria, emissoras de TV americanas. Quando Marcos perdeu o contato com Enrille, ele respondeu aos rebeldes através do programa de Marvin Kalb "Meet the Press"".  
 

O impacto da Cobertura da Revolução Filipina nos Veículos Americanos

A cobertura dos acontecimentos nas Filipinas foi crucial para os filipinos radicados nos Estados Unidos.  

No sul da Califórnia, onde vivem 500.000 filipinos, a cobertura, minuto a minuto, dos noticiários foi muito importante e evitou que uma multidão de filipinos regressasse ao país de origem para tentar proteger os membros de sua família, o que facilmente poderia ter convertido a revolução, numa revolução sangrenta.  

As câmeras de televisão têm sido constantemente acusadas de promover a desobediência civil e a violência. Mas ao que parece, nas Filipinas aconteceu exatamente o contrário. Possivelmente, (e em parte) porque sabia ser o centro das atenções do mundo, o povo filipino foi extremamente comedido - numa atitude historicamente sem paralelo.  

Talvez o melhor exemplo disto, sejam as palavras de uma menina filipina na noite da queda de Marcos. Quando os manifestantes finalmente tomavam o Palácio Presidencial, na sua frente, e em frente às câmeras de TV, ela pareceu estar plenamente consciente de que o mundo estava testemunhando o evento. 

Como se quisesse justificar o que estava se passando, ela olhou para a câmera da rede de televisão e explicou, " Perdoem o nosso povo e por favor entendam, que após vinte anos é difícil se controlar."  


O segredo é o início da tirania.   --Robert Heinlein


 
Atualizando a História em 1998. 

Marcos, caiu doente e morreu poucos anos depois da revolução.  

Após a sua morte, a esposa de Marcos voltou às Filipinas e está novamente envolvida na política local.  

Cory Aquino, a viúva de Benigno Aquino, chegou à Presidente depois que Marcos foi deterrado das Filipinas para o Havaí por helicópteros americanos. Ficou comprovada a fraude generalizada na contagem dos votos que garantia a reeleição "oficial" de Marcos e Cory Aquino subiu ao poder.  

(Benigno Aquino, o homem que representava a única oposição política real a Marcos, e esposo de Cory Aquino, foi assassinado em plena luz do dia no Aeroporto Internacional de Manilha, em agosto de 1983, quando regressava de uma viagem aos Estados Unidos.) 

O General Fidel Ramos, um dos "líderes rebeldes" foi eleito pelo povo e sucedeu Cory Aquino na presidência.  

Talvez por ter exercido um controle tão efetivo dos meios de comunicação locais durante tantos anos e pelas suas mensagens, algumas pessoas nas Filipinas se negam a aceitar que Marcos tenha agido mal e o têm agora em sagrada estima.  

Em 1998, continuam as batalhas legais para obter o controle sobre a fortuna de Marcos (estimada em centenas de milhões ou até bilhões de dólares) para reparar as perdas e danos causados às vítimas da tortura e às famílias dos desaparecidos. Manobras legais continuam atrasando o processo.


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