Revisado: 06/05/2000

Liberdade x Valores


 

A liberdade tem sido muito questionada últimamente.

Existem aqueles que pensam que os meios de Comunicação (e as artes), têm muita liberdade e que as idéias apresentadas nos veículos de massa (especialmente a televisão) devem ser controladas com mais rigor.

Em conseqüência disso, a liberdade tem perdido terreno.

Devemos lembrar que o sucesso de nosso sistema de governo democrático está baseado em eleitores bem informados e que a única forma de se ter eleitores bem informados, é permitir o livre fluxo de informação. 


Uma nação que tem medo de deixar o povo decidir
sobre a veracidade das idéias em um mercado livre
é uma nação que tem medo do seu povo.

John F. Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos

 

Embora todos tenhamos aprendido essas coisas nas aulas de Cidadania do antigo ginásio, hoje em dia, é fácil esquecer estes valores - especialmente quando o livre fluxo de informação inclui idéias que vão contra os nossos princípios básicos.

Como exemplo disto, podemos citar: as manchetes e as estórias absurdas que regularmente aparecem nos tablóides sensacionalistas ("Mulher com duas cabeças se casa com dois homens"); programas como o "Hard Copy" que redefiniu o jornalismo marrom; e é claro, as fotos , videotapes e obras de arte classificadas como "pornográficas".

 

A Censura pelo Bem de Nossos Valores

Estes e outros aparentes abusos da liberdade de expressão foram suficientes para levar muitas pessoas a exigir algum tipo de controle sobre os meios de Comunicação - algum tipo de censura. E isto é exatamente o que está acontecendo.

De acordo com o jornal USA Today, movimentos abertos pela censura de livros acontecem em cerca de 20% das escolas nos Estados Unidos, a cada ano -- isso sem contar os esforços não reportados, que certamente excedem esta porcentagem.

Entre os materiais censurados se encontram obras de Shakespeare e livros clássicos como : The Red Badge of Courage, Mr. Roberts, Catcher in the Rye, the Great Gatsby, The Adventures of Huckleberry Finn, To Kill a Mockingbird, Lord of the Flies, 1984, Go Ask Alice, y Of Mice and Men.

Até mesmo o Webster's New World Dictionary foi vetado em algumas escolas por conter "palavras inconvenientes.''

Nestas circunstâncias, não é de se admirar que Fahrenheit 451, um livro sobre censura, tenha sido censurado também.

É interessante lembrar que durante a campanha política que o levou ao poder, Hitler, um dos mais odiados fascistas da História, conquistou a aprovação popular, prometendo limpar os meios de Comunicação da "corrupção moral" do seu tempo. O que demonstra que naquele tempo, tanto quanto hoje, a idéia de sanear os meios de comunicação tem um forte apelo popular.

Mas, a censura não está acontecendo apenas nas escolas. Nos últimos anos, as tentativas de manter certas atividades do governo secretas do grande público, tem alcançado novas dimensões.

A porcentagem dos documentos classificados como "confidenciais" cresceu dramaticamente durante os governos de Reagan e Bush. Muitos destes não têm nada que ver com segurança nacional; entre eles se incluem estudos sobre lixo tóxico e dados importantes sobre acidentes de trabalho.

Antigamente, quando um mensageiro era portador de más notícias para um Rei, e o Rei ficava muito irritado, o pobre mensageiro pagava com a vida. Hoje em dia, podemos observar este tipo de rancor contra os mensageiros do nosso tempo - os noticiários.

Há alguns anos atrás, uma equipe de TV na Flórida gravou secretamente um chefe de polícia aceitando suborno. A gravação era clara, e a evidência irrefutável. O público ficou revoltado... com a emissora de TV. A razão? O chefe de polícia era querido pelos cidadãos. Entrevistas com o público revelaram que as pessoas se ressentiram com a reportagem investigativa por esta ter abalado a confiança que tinham no policial e a reação geral foi de desconfiança, quanto às intenções da emissora de TV.

Após a transmissão das denúncias sobre atividades ilegais que estavam ocorrendo na Sala Oval da Casa Branca, o presidente Nixon foi obrigado a renunciar. No dia seguinte, uma emissora de TV da Flórida conduziu uma série de entrevistas na rua, do tipo "povo fala", mostrando o rancor das pessoas contra os meios de Comunicação. Uma das entrevistadas, muito revoltada, encarou a câmera de vídeo e disse: "É tudo culpa de vocês, jornalistas. Se não fosse por vocês, nós ainda teríamos Nixon como nosso Presidente!"

Todos os que trabalham com notícias sabem como a corrupção prospera, quando pode ser oculta do conhecimento público. Mas, graças à tecnologia, não é mais tão fácil esconder as coisas.

Para citar um exemplo, cidadãos decididos a fazer alguma coisa, utilizando câmeras de vídeo doméstico, têm documentado uma grande variedade de abusos contra a cidadania e enviado o material para exibição em noticiários e programas que tratam de assuntos de interesse público.

Embora, neste momento, nosso país não esteja empenhado em nenhuma luta para proteger nossos direitos, temos o compromisso de defender a liberdade (no mínimo, para com aqueles que lutaram e morreram para protegê-la no passado).

Ironicamente, aqueles que vivem proclamando as virtudes desta "terra de homens livres", são geralmente os primeiros a reclamar providências urgentes para sufocar as idéias e valores que diferem dos seus próprios pontos de vista. 
 


A censura reflete a falta de confiança
de uma sociedade em si mesma.


Potter Stewart

Foi comprovado que psicologicamente existe uma relação entre segurança pessoal e tolerância. Em outras palavras, a insegurança pessoal geralmente está relacionada com a inabilidade do indivíduo de tolerar novas idéias ou idéias que sejam contrárias às suas.

Os déspotas, quando ameaçados de perder o poder, lançam mão da censura - quanto mais insegura a situação, mais desesperados são os seus esforços para manter o controle.

Regimes totalitários e censura têm andado de mãos dadas através da História. (Leia o artigo, O Impacto dos Meios de Comunicação na Política Internacional).

A insegurança pessoal e a inabilidade de se confrontar com novas idéias estão relacionadas com a mobilização de três defesas do ego.

A primeira é a exposição seletiva, onde o indivíduo tenta evitar situações que o exponham a idéias contrárias às suas. Desta maneira, seus pontos de vista têm pouca probabilidade de serem questionados e modificados.

É importante lembrar que é na discussão que os fatos novos emergem. Aqueles que tentam limitar a sua exposição (e a de outros) a novas idéias podem, de fato, estar criando uma situação que acabará se voltando contra eles próprios no final das contas.

Estudos demonstram que aqueles que não têm a oportunidade de comparar e defender suas idéias, são os mais aptos a abandoná-las, quando se defrontam com uma argumentação feita de maneira forte e convincente - ainda que o tal ponto de vista não tenha muita lógica.

No entanto, aqueles que tiveram a chance de testar e defender as suas idéias, tendem a se manter fiéis e defender seus pontos de vista quando questionados.

Interessante notar que muitos anfitriões de talk shows fazem questão de selecionam os convidados, a fim de evitar aqueles com idéias contrárias às suas no programa. Ao invés de promover o debate e estimular o pensamento, eles parecem temer o confronto de idéias. (Qual será a origem deste medo? A insegurança sobre a viabilidade de seus pontos de vista? Ou a inabilidade de defendê-los com sucesso?)

O segundo mecanismo de defesa é a percepção seletiva. Alguns indivíduos, diante de idéias ou informações contrárias às suas crenças, se recusam a reconhecer a credibilidade ou "ver" a importância da informação.

Se a idéia, em si, é difícil de contestar, o indivíduo tentará desacreditar a fonte. "Não se pode acreditar em nada que (quem quer que seja) diz". Atribuir a idéia a uma fonte incompetente, corrupta ou mal vista é outro método utilizado.

E finalmente a memória seletiva. Colocando de maneira simples, nós tendemos a recordar conceitos que suportam nossos pontos de vista e convenientemente esquecemos aqueles que não.

Por exemplo, algum tempo depois de ter assistido a um programa de TV, que apresentou informações que contradizem as suas crenças, a tendência do indivíduo é se lembrar apenas dos fatos que reforcem as suas crenças originais.

Embora estes mecanismos de defesa sirvam para proteger o nosso sistema de crenças, eles também limitam o crescimento e as oportunidades pessoais.

E possivelmente, o que é mais importante, limitam a capacidade do indivíduo de se adaptar a novas situações e de buscar novas soluções para os problemas. (Se tivéssemos soluções para os problemas, eles continuariam a ser problemas?)

Através da História podemos observar o que aconteceu com as espécies e sociedades, que não foram capazes de se adaptar às mudanças.

Atualmente, as mudanças estão acontecendo num ritmo alucinante. Toda mudança implica a emergência de novas idéias -- que podem vir a ameaçar as crenças já estabelecidas.

Por exemplo -- numa determinada época da História era heresia sugerir, que o mundo não era plano e nem o centro do universo. As idéias contrárias eram rigorosamente censuradas. Os que eram suficientemente corajosos para defender suas idéias abertamente, eram torturados até se arrependerem; e quando isto não acontecia, eram simplesmente assassinados (pelo bem da sociedade).

Devemos lembrar que o preço da liberdade inclui a tolerância de idéias diferentes das nossas. E que algumas vezes devemos defender os direitos daqueles com quem não estamos de acordo, para garantir a liberdade de expressão de idéias que consideramos melhores e mais valiosas.

Não, a liberdade e os valores não estão em conflito, pelo menos não enquanto pudermos usar a nossa liberdade de forma responsável, e não enquanto as nossas crenças e personalidades forem fortes o bastante para ouvir e considerar idéias e pontos de vista diferentes dos nossos. Este é o preço da liberdade.


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