Revisado: 06/05/2000O Impacto da Mídia na Política Internacional
Os links de satélite tornaram possível a transmissão de TV, ao vivo, Ron Whittaker
de qualquer parte do planeta, e transformaram o mundo em um gigantesco auditório para os telejornais.
Em conseqüência disso, a teoria do filósofo canadense Marshall McLuhan, que se refere ao mundo pós-televisão como uma "aldeia global", ganhou credibilidade e a famosa frase de Shakespeare "o mundo é um grande palco", um novo sentido.
Contudo, além das dimensões filosóficas da comunicação global, via televisão, devemos considerar as implicações dramáticas, deste fato, no campo da Política. Antes mesmo da comunicação via satélite ser possível, o impacto da tecnologia de transmissão de notícias se tornou evidente nas áreas da Política nacional e internacional.
Uma Rápida Retrospectiva
A televisão é um veículo de close-ups. Por isso, ela é capaz de despertar emoções muito facilmente e é o meio de comunicação de massa mais eficaz, quando se trata de revelar o sofrimento de um povo.Provavelmente, as imagens estarrecedoras dos campos de concentração nazistas foram as primeiras, a demonstrar o poder que o Cinema e a TV têm, de afetar a consciência coletiva da audiência mundial.
Nos Estados Unidos, durante os anos 50 e 60, este poder foi comprovado ainda de outra maneira, quando noite após noite, as imagens da luta pelos direitos civis chegaram aos lares americanos.
Ainda que, numa primeira etapa, a habilidade tecnológica dos telejornais tenha sido cobrir eventos de forma rápida e efetiva , o papel das notícias de TV, como instrumento de mudança social e política, foi estabelecido posteriormente.
A televisão teve um papel fundamental durante a guerra do Vietnam.
Ler sobre a guerra era uma coisa; porém a guerra ganhou uma nova dimensão - mais profunda e desagradável - quando foi exportada diretamente para a sala de estar dos lares americanos. A opinião pública acabou se voltando contra a guerra e o Presidente Johnson, que estava associado a ela.
Como resultado, a partir de então, o Pentágono ficou muito mais cuidadoso e começou a controlar, o que os correspondentes estrangeiros e as equipes de TV podiam ver e reportar.
Foi nesta época, que o Presidente Carter fez da causa dos direitos humanos o tema central da sua política externa e num certo grau o centro da política internacional.
Carter disse: "Os direitos humanos são a alma da nossa política internacional". "De todos os direitos humanos, o mais básico é a libertação da violência arbitrária, venha ela do governo, dos terroristas, de criminosos ou dos que se declaram novos messias e operam sob os auspícios da política ou da religião".
Depois de 1980, houve uma mudança de ênfasis. Em contraste com as palavras de Carter, o Presidente Reagan disse:"Não creio que possamos abandonar alguns países, somente porque discordam, aqui e ali, do nosso conceito de direitos humanos".
M as, mesmo que os direitos humanos não sejam mais a "alma" da nossa política externa, o tema tornou-se a "alma" dos nossos telejornais. Pelo menos, quando consideramos o assunto num sentido mais amplo, o tema direitos humanos tem sido o foco de muitas, se não da maioria, das principais matérias internacionais.
E estas estórias têm abalado o cenário da política mundial. Poderíamos citar aqui inúmeros exemplos, mas vamos nos concentrar nos casos da África do Sul e das Filipinas.
O impacto da Mídia na África do Sul
Embora a África do Sul dificilmente possa ser considerada uma das maiores transgressoras da liberdade de imprensa, em termos mundiais, o governo sul-africano - sempre preocupado e nervoso com uma imprensa "sem controle", especialmente a imprensa negra - formulou 90 leis, para regular e restringir a liberdade de expressão.E muitos repórteres da África do Sul foram presos - ou até sofreram destinos piores - por terem ousado contrariá-las.
Até hoje, devido a esta censura, os brancos da África do Sul pouco sabem sobre as dificuldades dos negros em seu próprio país - uma situação muito parecida com a que existia nos Estados Unidos, há trinta anos.
M as, um novo elemento foi introduzido: a mídia estrangeira. A chegada de equipes de jornalistas estrangeiros teve um efeito inquietante no ambiente cuidadosamente controlado dos noticiários da África do Sul. De repente, os abusos contra os direitos humanos, abafados por tanto tempo, foram expostos aos olhos do mundo.
Antes de 1985, as leis que regulamentavam a liberdade de imprensa, só se aplicavam aos repórteres sul-africanos. Mas, a partir de novembro daquele ano, a África do Sul começou a restringir a imprensa estrangeira - principalmente as câmeras de TV - de registrar o que ocorria nas áreas negras do país.
O governo alegou que a restrição tinha como finalidade, reduzir a violência. Porém, as conseqüências de tal censura foram a intensificação da frustração e da violência.
Mas esta censura imposta pelo governo sul-africano serviu apenas para confirmar as suspeitas sobre os abusos, que estavam ocorrendo na África do Sul contra os direitos humanos, diante do mundo.
O efeito na política internacional foi pronunciado. Podemos citar, como exemplo, as sanções econômicas impostas por muitos países à África do Sul. Mas, além disto, parece ter havido uma conscientização sobre o assunto e uma mobilização da opinião pública mundial.
A influência que os veículos de notícias terão na situação da África do Sul, ainda não é muito clara. Muito provavelmente, o capítulo mais importante sobre os eventos naquele país, ainda está por acontecer.
Mas nas Filipinas a estória foi diferente.
O Impacto da Mídia nas Filipinas
Provavelmente em nenhuma outra parte do mundo, os efeitos da técnica eletrônica de captação instantânea de notícias foram mais dramáticos que na Revolução Filipina.Após a fuga do Presidente Marcos do país, um de seus assessores declarou, que se não fossem pelas denúncias da TV, ele não tinha dúvidas, que Marcos teria conseguido se manter na Presidência.
Eu, pessoalmente, fiz três viagens às Filipinas para averiguar o impacto da mídia - local e estrangeira - na revolução.
Vamos voltar ao final de 1985, examinar detalhadamente os acontecimentos e ver como a transmissão de notícias pode moldar a política internacional.
Ferdinando Marcos foi democraticamente eleito presidente pelo povo das Filipinas, em 1965. Foi reeleito e ao final do segundo mandato tornou-se ditador para continuar no poder.
Ele decretou a lei marcial e suspendeu a Constituição que exigia que o presidente se retirasse do cargo, após o cumprimento de dois mandatos. (Posteriormente, ele alterou novamente a Constituição de seu país, para garantir poderes ao Presidente, de anular qualquer decisão parlamentar, que o desagradasse).
Marcos se manteve no poder por vinte anos - durante os quais, ele e sua família acumularam uma fortuna pessoal, da ordem de bilhões de dólares.
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Apesar das centenas de milhões de dólares enviados pelos Estados Unidos, anualmente, o governo de Marcos, a cada ano, se endividava mais e mais; e à medida que a sua fortuna pessoal aumentava, a maioria do povo vivia na miséria.
Devido ao controle de Marcos sobre a mídia local, essas transgressões não eram publicadas ou então eram acompanhadas de explicações oficiais cuidadosamente estruturadas.
Vinte e cinco jornalistas, que caíram em desgraça com o regime de Marcos, "desapareceram". Um locutor de Rádio levou um tiro com o programa no ar. Qualquer pessoa que criticasse o governo abertamente, colocava a sua vida em risco.
Mas, os jornalistas não eram o único alvo.
Durante uma das viagens - 16 horas de avião - lendo um jornal de Manilha, nas Filipinas, fiquei interessado num artigo sobre um padre católico bastante conhecido, que sem nenhuma explicação "havia viajado"
Eu sabia que 80% do povo filipino era católico e que a Igreja era uma das forças sociais mais poderosas daquela nação.
O artigo explicava, que embora o padre fosse muito popular e expansivo, ele tinha o estranho hábito, de partir sem aviso prévio para pescar. E seguia descrevendo as diversas ocasiões em que isto havia acontecido no passado. O artigo assegurava aos leitores, que o padre iria, sem dúvida nenhuma, reaparecer a qualquer momento e esclarecer o assunto.
N ão pensei mais no assunto, até ir à missa no domingo seguinte com um amigo. Coincidentemente, a igreja era a mesma do padre do artigo, que eu havia lido no avião. (Num país com 7000 ilhas e um número muito maior de igrejas Católicas, esta era uma coincidência de primeira ordem.)
O sacerdote que oficiava a missa explicou à audiência preocupada, que o padre havia sido seqüestrado, alguns dias atrás, em plena luz do dia numa movimentada rua de Cebu (uma das maiores cidades nas Filipinas).
Ao que parece, o querido padre não tinha papas na língua e havia dito algo, que alguém não gostou.
Até hoje, ele está desaparecido.
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